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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Nascer



O medo. A ânsia de me escrever e descrever. O motivo bêbado de insegurança. Por não saber construir. Por não saber formar palavras.

As letras pararam ao meu redor, num dia que se vestiu de solidão. E nesse dia, nesse momento de dor incrustada, o meu coração fechou-se a tudo. Silenciou-me a boca, os braços, a voz e as mãos. O corpo.

Passaram os dias, as horas, minutos e segundos. O mundo girou e não parou. Não se deixou ficar. Não se fechou em mim e às voltas andou por aí. O mundo que é sempre um engano aos olhos de quem pensa ter tudo. Um mundo injusto para os que apaixonados se enganam e justo para quem teima em amar.

Às vezes a cidade brilha. Pouco. Mas brilha. E é nessa cidade que vivo, cheia de gente estranha e alguns que sorriem a medo. Às vezes a cidade grita. E eu vou vivendo nesse grito, no centro desse brilho pouco, enfeitado de gente cinzenta. Mas às vezes a cidade é linda. E é por ser às vezes que se torna apaixonadamente vivida.

Noutra hora, num outro lugar, numa outra esfera, um dia pequei por sentir incompreensão. Escolhi o meu destino sem que ninguém mo tivesse imposto. E nesse dia ao pecar... apaguei a boca, os braços, a voz. O corpo. E foi pecando que no meio da cidade pecadora fui dando passos de luta em luta. Fui-me tentando em fuga do mal e cruzando aos poucos as teias desalinhadas do meu verdadeiro EU.

E hoje sei que me reencontro. Pelo tempo percorrido debruçado na janela do medo, eu vi passar a vida como um ninho de vida por vir. Eu vi fechar-se em mim os sonhos um dia sonhados. E vi por fim um desfile de coisas passadas, de cabeça baixa, de medos esquecidos e derrotas frustradas. Pelo tempo percorrido lançado na porta de um mundo escondido, peguei no meu corpo e servi de bandeja ao sol, ao mar, aos sorrisos, às mãos daqueles que me amam. Ao mundo feito de descobertas, de sonhos ainda fechados. Peguei no meu coração e pintei-o de novo de paz. De compaixão.

O medo. A ânsia de me escrever e descrever. Hoje eu sei que não fui feito para desvanecer. E eu sei que voltei.
Voltei para não mais pecar nas palavras ditas e não ditas.
Voltei para mudar... sem medo de me enganar.
Voltei para viver... sem medo de me aceitar.